domingo, 16 de junho de 2013

Fim de mundo



Ele se foi.

Mas não era uma ida à padaria, para comprar o pão e sentar à mesa depois do trabalho.

Manteiga e café com leite quente, entremeados pelos cotidianos comentários sobre as agruras do dia, cercados pelas crianças que na certa iriam brigar, recusar-se a comer a fruta, ou fazer alguma gracinha que nos faria rir despreocupadamente.

E comprar cigarros não era com ele.

Ela foi quem trouxe os cigarros, que fumava, um atrás do outro, de pé na enorme sacada  enquanto ele arrumava sem pressa alguma sua mala.

O que ele estaria levando, ela não sabia. Não conseguia olhar, não queria saber. Roupas, sapatos, shampoo, sabonete, barbeador, com certeza, aquele gel que gosta de usar nos cabelos.

E o cheiro? Será que sairia pela porta com ele? Aquele cheiro e as coisas às vezes espalhadas pelo quarto que ela antes sentia e via com satisfação, e que nos últimos dias a faziam ter vontade de vomitar e jogar tudo pela janela? Talvez o cheiro ainda ficasse por mais tempo, e a fizesse sentir alguma saudade de alguma coisa que já não sabia mais o que. Seu rosto de vidro, seu olho ruim dos últimos tempos, isso não era.

Fotos, livros, revistas, CDs talvez. Não, isso ficaria para depois. Mas será que haveria um depois?

Ela não sabia dizer, mas parecia que não. O chão se abria sobre seus pés, o ar descia queimando sua garganta seca, uma sensação de vertigem e angústia que fazia com que cada segundo se precipitasse sobre ela e seu corpo. Era tarde demais.

O apocalipse não se parecia com as cenas de filmes americanos: explosões, gritaria, correria, carros e prédios voando pelos ares. Era algo bem mais banal, doméstico, prosaico. Era um simples: “eu não te amo mais” que tragava tudo ao redor.

“O depois sempre vem”, pensou ela, sufocando, isso sim é terrível. Com seus segundos, minutos, horas, dias, meses e até anos. Não há o que fazer, tudo é varrido pelo tempo e pelo esquecimento, de forma mais ou menos aguda, nossas dores são ridículas.

“Mesmo assim, eu odeio”, disse sem querer, em voz alta, sem resistir a mais antiga das dicotomias da face da Terra: o melhor dos afetos transformado em ira.

A porta já estava fechada. Só deu tempo de ver o brilho do sol com sua luz refletindo no vidro do carro que acelerava e que, obviamente, ia embora com ele.

Entrou em casa. Lavou o rosto. Passou com raiva o batom mais forte que tinha na boca.

“Vou ligar para ela”, pensou, sorrindo e apertando os lábios para espalhar de maneira uniforme e cuidadosa o batom vermelho.”


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